Ciclos x séries: Qual o modelo ideal para a escola do século XXI?

Alvo de grandes discussões no meio acadêmico, adoção de modelo que avalia alunos ao final de um ciclo de tempo pré-determinado ainda não chegou para ficar, como previam alguns especialistas.

 No próximo dia 18, 55 mil alunos da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro farão provas de recuperação. Estes estudantes fazem parte de um grupo de alunos, do 3ª ao 6ª anos, que ainda tenta garantir a aprovação no ano letivo de 2009, evitando assim que o número de reprovados seja ainda maior do que o divulgado pela secretaria municipal no final de 2009. No primeiro ano sem a aprovação automática adotada pela gestão anterior, dos 436.313 alunos matriculados, 49.325 (11,3%) foram reprovados. O índice é bem superior ao de 2008, que foi de 5%, quando só eram reprovados os alunos que estavam nos finais dos ciclos. Os números levantam mais uma vez a polêmica sobre a qual o melhor modelo para a escola do século XXI: o seriado ou de ciclos.

 O aumento do número de alunos reprovados não surpreendeu a doutora em Ciências Humanas e Educação, Claudia de Oliveira Fernandes. “Já sabia que iria acontecer. Atribui-se a não aprendizagem dos alunos ao sistema de ciclos e à aprovação automática, mas no Rio de Janeiro, o ciclo para todo o ensino fundamental só foi implantado no último ano do governo César Maia. A rede só ficou organizada em ciclos durante um ano. É só fazer as contas. Por que então as crianças não aprenderam? A rede municipal do Rio só tinha ciclo, desde 1999, nos três primeiros anos do ensino fundamental. Depois, os alunos eram reprovados e organizados em séries. É preciso ver os números de 2007, 2006, 2005….”

 De acordo com Claudia de Oliveira Fernandes, em 2007, dos 91 municípios do Rio de Janeiro, apenas 36 (39,56%), utilizavam exclusivamente o modelo seriado. Os demais 55 municípios, o que equivale a 60,44%, adotavam o sistema de ciclos em algum momento da escolarização.

 “Usavam ou em todo o ensino fundamental ou nos cinco primeiros anos (anos iniciais do EF) ou apenas no ciclo de alfabetização (2 ou 3 primeiros anos do EF). Há uma variação grande nas formas de organização e claro que isso se reflete também nas formas de conceber os ciclos”, explica a especialista, que é uma das coordenadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas de Avaliação e Currículo da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio).

 A especilista critica as mudanças frequentes de modelo, o que na sua visão atrapalha o processo pedagógico. Além disso, ela lembra que muitos professores não estão preparados para atuar em escolas que trabalham com o modelo de ciclos.

 “Preparar os futuros docentes para trabalharem em ciclos significa trabalhar na prática a partir dos princípios que regem essa nova possibilidade de enxergar e organizar a escola. Por que a discussão dos ciclos tem implicações práticas e implicações teórico-filosóficas. É preciso se pensar nas questões filosóficas que vão orientar o ato educativo, para depois pensar em como viabilizá-las na prática. Uma escola de massa ou uma escola para todos, entendendo que esse todo não é homogêneo? Uma escola na qual todos devem aprender e podem aprender e como viabilizar práticas para que isso se dê? No fundo, o que se coloca é o debate acerca de um projeto de sociedade. Os cursos de formação de professores também funcionam na prática, num modelo tradicional.”

 Apesar de acreditar que o modelo em ciclos é mais adequado à escola de hoje, Claudia Fernandes destaca que os índices relativos ao desempenho das escolas seriadas e das escolas em ciclos não diferemsignificativamente, nem para mais, nem para menos. “Há redes cicladas em que os índices são maiores, como também há o contrário. O que não significa dizer que não faz diferença. Significa ponderar que: outros fatores concorrem para o melhor desempenho dos alunos; que os ciclos não foram implementados de fato nas escolas. Foram implantados pelas redes, daí a se concretizarem em práticas nas escolas, é outra coisa.”

 A especialista recentemente publicou “Escolaridade em Ciclos – Os desafios para a escola do século XXI” (WAK, 2009), afirma que a discussão entremodelo seriado ou em ciclos é superficial.

 “Enquanto ficarmos discutindo isso, não colocamos a mão na massa, ou seja, não atacamos os pontos que de fato melhorariam a qualidade da educação. As séries ou os ciclos ou a avaliação ficam sendo um bode expiatório. E muitos sabem disso. O desafio é pensar uma escola, seja organizada de que forma for, mas que seja um espaço de circulação de saberes e culturas, um lugar de aprender, de trocar idéias, onde todos possam aprender: crianças, jovens, adultos, sejam professores, funcionários, pais, etc…”

 MODELO DE CICLOS AJUDA A COMBATER A EVASÃO

 Autor dos livros “A Escola em Ciclos: fundamentos e debates” (Cortez, 2009) e “Reinterpretando os Ciclos de Aprendizagem” (Cortez, 2007), Jefferson Mainardes diz que o aumento no número de reprovados era esperado. “Esses números indicam algo esperado, pois no sistema seriado a reprovação é uma característica inerente. O aumento da taxa de reprovação nem sempre indica que ocorreu uma elevação no nível da aprendizagem dos alunos.”

 Um dos grandes temores dos gestores educacionais é que a repetência leve a evasão escolar e sob esse aspecto, Mainardes acha que o sistema em ciclos é superior ao seriado, mas destaca que é preciso adotar outras medidas para acabar com a evasão. “Além dos ciclos, poderíamos destacar: a ampliação da jornada escolar, por meio da educação em tempo integral; aumento nos investimentos de recursos financeiros do Ensino Fundamental; construção de propostas pedagógicas mais adequadas ao contexto brasileiro, que é bastante diferenciado em termos regionais e, acima de tudo, diante das diferenças de classe social que caracterizam diferentes comunidades.”

 Defensor do modelo em ciclos, Mainardes diz que ele tende a dar melhores resultados, pois é mais inclusivo e democrático do que o sistema seriado. Porém, destaca que é preciso que haja uma mudança geral no modelo. “A implementação desse sistema é complexa e, infelizmente, tem levado a resultados muito aquém do que seria o esperado e o necessário para a educação das camadas populares. É sempre importante destacar que os ciclos possuem aspectos positivos, mas os resultados que são obtidos estão muito relacionados ao conjunto de ações e medidas empregadas na sua implementação. Os resultados estão relacionados à prática das escolas, ao trabalho dos professores, ao nível de compreensão que eles têm da proposta e, essencialmente, com a infraestrutura que é disponibilizada para as escolas e professores.”

 Na visão de muitos pais, o sistema em ciclos significa aprovação automática. Por isso, muitos cobraram do atual prefeito, Eduardo Paes, a promessa de acabar com este modelo na rede municipal. Segundo Mainardes, a percepção dos pais é facilmente explicável. “Infelizmente, em algumas redes, a proposta de ciclos investiu mais na promoção continuada dos alunos (aprovação automática) e não investiu em outros aspectos, tais como: proposta de currículo, sistema de avaliação, formação permanente dos profissionais, melhoria na infraestrutura. Como os resultados acabam sendo muito precários por conta da falta de intervenção nos outros aspectos citados, os pais e a sociedade em geral posicionam-se contrários à promoção automática. Caso a história fosse outra, ou seja, os ciclos efetivamente causassem uma melhoria no sistema como um todo, os pais poderiam ver que a política de ciclos é melhor.”

 Encontro na UniRio debateu modelo de ciclos

 O V Encontro Estadual das Escolas em Ciclos – Rio de Janeiro aconteceu em novembro, na UniRio. O encontro é realizado anualmente desde 2005 e tem como objetivo debater, do ponto de vista da conjuntura política e educacional regional e brasileira, processos de democratização da gestão e do ensino-aprendizagem,

relacionados às propostas de organização escolar em ciclos e, ao mesmo tempo, movimentos de resistência tanto à proposta de ciclos quanto àqueles que, em situações desfavoráveis à proposta, tentam mantê-la. No gráfico ao lado, é demonstrado o percentual de adesão dos municípios do Rio aos modelos.

 

  

De acordo com a professora Claudia Fernandes, no último encontro os participantes concluíram “que é preciso reforçar a necessidade de se lutar por uma educação escolar em que se respeite as diferentes formas de aprender, em que os currículos sejam revistos, em que a discussão em torno da avaliação seja colocada em seu devido lugar e não tenha a exacerbação que se tem feito dela, ocultando os reais problemas do sistema público de educação”. O encontro também foi marcado pelo debate acerca das recentes políticas educacionaisimplantadas nos municípios que têm sido conservadoras do ponto de vista pedagógico e político. “Do ponto de vista pedagógico, têm-se a sensação que se voltou à década de 40 ou 50, quando se acreditava que o ba, be, bi, bo, bu e só,alfabetizava as pessoas. Quando o IBGE considerava para fins do Censo que ser alfabetizado era escrever o nome. Já tínhamos virado essa página. Isso marcou uma tristeza muito grande no último encontro”, destaca a professora.

   
 
 
 
 

Fonte: Jornal Folha Dirigida –  Caderno de Educação 07 a 13 de Janeiro de 2010. Entrevista realizada por Andréia Antunes

 

 

 

 

 

 

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