DUAS CONOTAÇÕES SOBRE EDUCAÇÃO INTEGRAL

Neste Século XXI, diversos autores e pesquisadores brasileiros em educação redescobrem e retomam paradigmas de Educação Integral* em prol de uma educação de qualidade.
A temática eclodiu no Brasil, de fato, em 1932, por meio de um movimento de educadores e intelectuais renomados no campo educacional, chamados de Escolanovistas. Suas ideias defedem a adoção de um tempo ampliado com qualidade na escola, em favor de uma educação única, laica, obrigatória, pública e gratuita. Essas ideias influenciaram a implantação da Escola-Parque em Salvador, nos anos 50; da Escola-Classe em Brasília, na década de 1960, e, posteriormente, a criação dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEP) no Rio de Janeiro, na década de 1980 .
Algumas décadas depois, a temática da Educação Integral retorna ao cerne das legislações de ensino. Sua relevância vem sendo corroborada em termos de políticas públicas, como o Programa Mais Educação , com a ampliação do tempo e espaço nas redes de ensino públicas.
No campo ideológico, a Educação Integral possui conotações das mais variadas possíveis. Destacamos duas: a concepção integrada, que defende a jornada ampliada a partir da centralidade da escola, bem como a integradora, que entende que há possibilidade da ampliação do tempo e espaço sem a necessária centralidade da instituição escolar. São concepções que aparentam similaridades, porém, em seu cerne conceitual e político, são completamente diferentes.
Na primeira concepção, a escola está integrada num contexto maior de aprendizagem escolar. “Essa ideia assevera que a solução para muitos males e mazelas no interior da sociedade e, mais precisamente no espaço escolar, está direcionado à falta de sensibilização e do envolvimento da população” . Portanto, torna-se ímpar integrar a escola, como protagonista, a outros parceiros em atividades diversificadas dentro e fora da escola . Como exemplo, temos a “Escola Integrada”, de Belo Horizonte, ampliação da Escola Plural.
A concepção integradora é veiculada em discursos que abarcam a defesa de teias sociais, redes e, mais exatamente, comunidade educativa. Este último conceito vem se engendrando na perspectiva de semear ideologicamente que a escola, sozinha, não tem a competência em prover esforços para transmitir valores e atitudes educativas. As características e princípios sobre essa nova modalidade pode ser claramente entendida pela leitura de “A Cidade como Projeto Educativo” .
A publicação, de origem europeia, aborda que a escola precisa, necessariamente, comprometer-se a um projeto de cidade. Nesse projeto, a escola deixa de ter a centralidade do planejamento do processo educativo, ampliando-se os espaços escolares. A escola adentra a esse projeto como mera parceira, destituindo-se, assim, do seu grande papel de propulsora de uma educação comprometida com a criticidade e com a transformação social.
Nesse livro, há algumas “questões de fundo” que precisam ser identificadas, estabelecendo conceitos da nova ordem econômica e social. Nesta ordem, o Estado, grande mantenedor financeiro das políticas educacionais, passa a ser meramente o co-responsável, destituindo-se de seu comprometimento em manter as políticas de fomento a uma educação com qualidade.
Em vista disso, corroboramos com Leher , que aborda que, dessa forma, a educação e a qualificação transitam da política pública para o assistencialismo ou filantropia, tal como uma estratégia de alívio da pobreza, como a situa o Banco Mundial. Assim, o indivíduo passa a ser o grande mantenedor de seus sucessos e fracassos, sendo culpado se não conseguir ascensão profissional ou cultural. Há a descaracterização de uma análise conjuntural e política de sociedade.
Logo, percebemos um contexto que desmoraliza a escola no seio de seu papel social e cultural. A escola tem sua verdadeira missão no ato de educar para a cidadania – a escola instrui e potencializa os indivíduos nas diversas linguagens do conhecimento! Esse é seu verdadeiro papel.
Ainda sob esse prisma, devemos compreender que a escola deve ser a protagonista no projeto educativo e não necessariamente a cidade. Não há dúvidas que parcerias são importantes, mas quem deve ser o gestor dessas parcerias e o centralizador do planejamento é a Escola.

Sheila Cristina Monteiro Matos

*Modalidade educativa que congrega e articula três instâncias básicas: intelectual, física e moral.

Cf EDUCAÇÃO INTEGRAL: texto referência para o debate nacional. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2008.
Cf BRASIL. Ministério da Educação. Portaria Normativa Interministerial Nº 17. Institui o Programa Mais Educação. Brasília, DF, 24 de abril de 2007.
GADOTTI, M. Inovações educacionais: educação integral, integrada, integradora e em tempo integral. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2008. mimeo. p. 14.
Cf PACHECO, S. M. Educação Integral e qualidade: problematizando a relação. Salto para o futuro, Ano XVIII, boletim 13, Rio de Janeiro, ago. 2008. pp. 26-29.
GÓMEZ-GRANELL, C.; VILA, I. (orgs.). A escola como projeto educativo. Porto Alegre: Artmed, 2003.
Apud FRIGOTTO, G. Educação, crise do trabalho assalariado e do desenvolvimento: teorias em conflito. In: FRIGOTTO, G. Educação e crise do trabalho. Petrópolis: Vozes, 2005. p. 15.

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