FRAGMENTOS DE REFLEXÕES SOBRE O TEMPO – PARTE 1

Os pesquisadores que se lançam ao desafio de realizar estudos sobre as temáticas relacionadas a educação de tempo integral, a ampliação das jornadas escolares e a educação integral se deparam com uma provocação de ordem maior: a abordagem da categoria tempo.

Uma das dificuldades de trabalharmos com essa categoria está presente no simples fato de reconhecermos o tempo enquanto uma construção sócio-cultural (ELIAS, 1998), mas termos dificuldades de operacionalizá-lo na realidade social.

Ainda é muito presente na sociedade a compreensão do tempo como algo externo ao homem. O tempo é natural, suas horas, minutos e segundos passam, e os simples humanos não podem interferir nesse fenômeno.

Trabalhemos com um exemplo para tentar justificar essa hipótese inicial. Por quê um sinal sonoro pode dar fim a uma prática pedagógica e iniciar outra? Se reconhecemos que o tempo é uma construção sócio-cultural, por quê encontramos dificuldades para implementar experiências pedagógicas que não sejam balizadas pelas horas do relógio no âmbito escolar? Por quê o som do sinal ainda é o grande orientador de ações?

Na obra “Sobre o tempo”, Norbert Elias descreve algumas características do tempo, sendo a utilização do tempo enquanto meio de orientação uma delas. O autor sinaliza que nas sociedades primitivas, o movimento do sol em relação a um determinado referencial, as fases da lua, os posicionamentos das estrelas eram marcas naturais que sinalizavam para que determinada comunidade realizasse uma determinada tarefa.
Uma comparação entre o sinal sonoro escolar e movimento dos elementos da natureza permitem-nos enxergar que ambos possuem um mesmo intento de orientar para uma determinada ação.

Se nas sociedades primitivas os elementos naturais constituíam um tempo físico/natural, e norteavam as atividades sociais, sendo essas atividades dos indivíduos sociais determinadas pelas necessidades coletivas, ou seja, o tempo era determinado passivamente, não sendo sua determinação experimentada e nem refletida (ELIAS, 1998, p.42). Não percebemos muitas mudanças, pois agora é o sinal sonoro que norteia as atividades sociais nas escolas, e essas atividades continuam sendo determinadas por necessidades coletivas. Em outras palavras, é o sinal que contribui para a organização dos tempos escolares para que sejam ensinadas lições valorizadas e legitimadas pela sociedade.

Algumas questões podem ser extraídas desse fragmento: os alunos não podem escolher o que gostariam de fazer; aquele(s) que possuem o poder pode(m) determinar aquilo que deve ser ensinado nas escolas; as escolas cumprem uma determinada função social, entre tantas.
Por hora, a questão que mais nos chama atenção é a incapacidade de empregar o conceito de um tempo construído sócio-culturalmente para nortear as ações pedagógicas. Nossas reflexões a partir de um paradigma tornam-se inócuas diante da resistência da idéia de um outro, que apresenta o tempo naturalizado como pilar. Mas a quem interessa essa noção de tempo naturalizado nos dias atuais? Como foi sendo construída essa idéia? O por quê de sua força?

Esperamos na seqüência da série “Fragmentos de reflexões sobre o tempo” apresentar chaves de leituras para possíveis compreensões da organização, controle e usos do(s) tempo(s) e suas relações com as escolas.

Por Felipe Rocha dos Santos

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: