Por uma analise conceitual…*

“Ser radical é segurar tudo pela raiz. Mas, para o homem, a raiz é o próprio homem” (Karl Marx)

A busca pela compreensão conceitual, relativista em muitos processos, esconde, ou mesmo tenta encobrir, elementos fundamentais, pois, definidores de uma determinada idéia. Por trás de uma suposta “trasitoriedade histórica”, percebemos a ausência de um sentido prático, oposto a idéia de fugacidade, que por muitas vezes nos aponta caminhos a serem seguidos, a tal “teleologia”, o processo “devir” como nos diria Marx . Nesse caso “correr atrás” de uma definição sobre uma determinada idéia requer um sentido, um caminho a ser percorrido e isso é uma tarefa necessária à construção do conhecimento, que demarcado no solo da modernidade, apresenta a ambigüidade característica de tal processo. Queremos dizer que a investigação referente a um conceito passa necessariamente pelo entendimento histórico das idéias nele empregadas, sedimentadas, em nosso caso, no âmbito do “capitalismo hodierno”

Nesse sentido, iniciamos através desta disciplina, um procedimento demarcado por uma “história desenvolvimental” como nos propunha Webber , preocupado em levantar elementos construtores do sentido moderno empregado ao conceito de educação integral. Uma busca caracterizada pela relação material entre as idéias e o solo do capitalismo no Brasil, relação essa substantiva em termos culturais, afinal as formulações existentes originam-se de um sentido prático, da relação do homem com o seu meio, para uma necessidade de intervenção e ao mesmo tempo isolamento do homem de suas ações. Uma espécie de “mal necessário”, de distanciamento em relação ao sentido prático da vida.

O que propomos, como forma de analise organiza-se através da premissa de que esta propagação isolada das ações do homem equivoca-se em sua raiz, uma articulação própria que privilegia o homem fora de seu sentido prático, de seu trabalho. Esse distanciamento, portanto, evoca a atividade humana compreendida por fora de seu sistema produtivo, ademais por fora de sua cultura. E essa “cultura capitalista”, como proposta em Weber sinaliza elementos importantes para entendermos o sentido prático do conceito educação integral.

Ao analisarmos esse conceito, dessa maneira, em seu nascedouro possibilitamos a compreensão da ambigüidade própria da modernidade, e nesse caso dos caminhos existentes para o entendimento conceitual. De um lado poderíamos afirmar, de forma superficial, que este conceito caracterizado como “polissêmico” (Guará, 2006) , empregado em conjunturas distintas, por atores distintos, de fato não nos possibilita uma assertiva sobre o que esta idéia procura identificar, mesmo que historicamente. De outro lado se tivéssemos a ousadia de afirmar que este conceito pode ser explicado somente pela sua manifestação conjuntural, estaríamos incorrendo no mesmo erro de isolar o homem de sua atividade. Queremos dizer que a partir dessa característica, podemos constituir uma analise que de conta de explicar que as relações existentes no âmbito da modernidade podem ser compreendidas pelo seu sentido prático, pelo “possível constituído” a partir das tensões existentes no espaço das classes originárias do modo produtivo.

No caso de nosso objeto, educação integral, seria de interesse ir além da contribuição formulada por Coelho (2009) e também utilizada por Cavaliere (2009) referente a categorias genéricas em sua definição conceitual. Modelos explicativos que para fins de compreensão de partida funcionam de forma interessante, afinal como tal conceito, por estas autoras demonstrado, assume formas tão distintas do ponto de vista da teoria política, a saber: um entendimento Socialista, Liberal e Autocrático? Seria possível tal movimentação se a ambigüidade, genética da modernidade, não possuísse um papel importante na difusão de uma cultura que privilegia o novo como alternativa ao velho, com fins de produção? Alternativas, a busca por constantes mudanças?

Sem dúvida tais respostas estão longe de serem dadas, tamanha a complexidade do objeto, mas de fato elas estão presentes e necessitam de explicações. Essa é máxima que movimenta nossa compreensão, que movimenta a difusão de uma cultura que por vezes, modela, mas que também por vezes dilui o sentido prático da ação do homem na história. Para nós que propomos essa caminhada sinuosa fica a contribuição de que precisamos avançar na constituição de um quadro teórico que minimamente busque explicar as demandas do presente.

Sendo desta forma considerado, o conceito que ora nos propomos analisar, em nossa realidade se materializa, ao longo da história, buscando distinguir o papel da escola de suas funções educacionais. Por diversos momentos esta escola presente foi questionada, o seu papel foi questionado, e nesse caso o conceito educação integral formulado enquanto alternativa ao fracasso representado pela crescente desigualdade social. A instituição moderna Escola-Educação-mobilidade social fracassou em sua essência, em diversos movimentos distintos, em países distintos, em realidades distintas e, pelo menos em nosso país, o conceito educação integral foi tratado como uma alternativa de sucesso, mesmo que de forma idealista, buscou criar um outro caminho, e por que não uma outra perspectiva para nosso desempenho educacional.

Buscamos analisar o conceito no âmbito de nossa história, forjado através da eficácia do homem e compreendido, igualmente, pela produção humana. Entender sua movimentação histórica representa um avanço importante em sua consolidação conceitual, é traduzir do genérico para o especifico sem desconsiderar nem um nem outro, somente avançarmos nessa movimentação. Nesse caso, estudar a historicidade conceitual do objeto representa a compreensão integral de sua manifestação, mesmo considerando fugidio o sistema integral, a máxima possível em termos de elementos que possam nos ajudar a melhor compreender o desenvolvimento, o processo como nos diria Franz Kafka .

Portanto, não seria muita pretensão tentar desvendar esse processo. Seria, se o desconsiderássemos na analise do objeto e justamente esse movimento, que a partir de nosso estudo propomos: os motivos que, no Brasil, nos levam a considerar o conceito educação integral como alternativa ao nosso fracasso educacional.

* Este pequeno texto é fruto de reflexões iniciadas na disciplina cursada no programa de pos-graduação em educação da UNIRIO: “Educação Integral na Educação Brasileira: Questões históricas, Políticos –filosóficas

Referencias:

MARX, Karl. Manuscritos Econômicos e Filosóficos. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2005.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o “Espírito do Capitalismo”. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

GUARÁ, Isa Maria F. Rosa. É imprescindível educar integralmente. Caderno CENPEC, nº. 2, 2006. p. 15-24.

COELHO, L. M. C. C. . História(s) da educação integral. Em Aberto, v. 22, p. 83-96, 2009

CAVALIERE, Ana Maria . Anísio Teixeira e a Educação Integral. Paidéia (USP. Ribeirao Preto. Impresso), 2009.

KAFKA, Franz. O Processo. São Paulo: Martin Claret, 2003.

Bruno Adriano

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