Animação Cultural: Idéias…

Mais do que simplesmente representar uma modificação no cotidiano escolar a Animação Cultural, vista por dentro da história da educação pública brasileira, identificou a necessidade de repensarmos o conceito de “qualidade” em nossa construção educacional. Logicamente que está identificação ocorre no conjunto de elementos disponíveis em nossa história e direcionado por um olhar demarcado na fluidez dos processos onde a Animação Cultural se fez presente. Nesse caso, concebe-la significa compreender o processo de construção presente em sua própria semântica, sobretudo em suas manifestações, em suas ocorrencias históricas.

No ano de 2008 defendemos nossa dissertação mestrado intitulada “Escola de Tempo Integral e Comunidade: História do Programa de Animação Cultural nos CIEPs” e nesse trabalho, contando com a interlocução junto à idealizadora do programa, professora Cecilia Conde, percebemos o quão é fugidio este conceito. Não pela ocorrencia própria dos CIEPs, mas sim pela sua própria ótica de atuação. Nela estavam dados os elementos pertubadores da escola tradicional, talvez pela essencia do “novo”, mas certamente pelo movimento diferenciado que esta propunha a escola, a educação. Essencialmente direcionada para o que a escola brasileira insistia em despresar por sua formação extrema em um tecnicismo bem elaborado por Celso Furtado em sua obra “Formação Econômica do Brasil”, a atuação do animador cultural reivindicava um olhar acentuado para nossa própria história, para a história daqueles que estiveram na Travessia, no “pau de arara”de Luiz gonzaga, nos “Sertões” de Euclides da Cunha ou mesmo nos manguezais expostos por Josué de Castro em “Homens e Caranguejos”.

Com esse intuito, de contar essa história, o movimento da animação cultura ressignificava o ambiente escolar público para que seus frequentadores pudessem compreender uma manifestação cultural por fora das arbitrariedades de nosso sistema de ensino. Nos vem a cabeça o depoimento de Cecilia Conde: “Ai a gente começou a ver que tinha que mudar isso e começamos a influenciar na mudança de currículo dentro da Secretaria de Educação, que a Secretaria de Cultura era dentro da Secretaria de Educação, era um departamento de cultura dentro da secretaria, uma coisa que até poderia continuar funcionando que ai seria uma presença efetiva da cultura não como complementar, mas necessária, uma visão diferenciada da educação. Então houve esse processo que a gente foi percebendo e, ao mesmo tempo, fazendo levantamento e percebendo o potencial que existe em cada comunidade e que nós não nos damos conta quando vamos a essa comunidade. Nós levamos os nossos meios de viver e poucas pessoas têm a preocupação de respeitar o espaço, entender as pessoas, então começamos a conhecer os artistas, ficamos observando, aquelas pessoas que viviam a sua comunidade tão esfacelada como nós estamos vivendo, mas lutavam pelas melhorias para o ser humano. Precisava de uma boa escola, precisava ter uma biblioteca, precisava ter a banda, ter a saúde, era a cultura geral, o bem estar de todas aquelas pessoas, não era a cultura ligada à erudição, era ao conhecimento, que é diferente.”

Nesse caminho, a compreensão conceitual da Animação Cultural integra-se ao combate, a luta contra o sentido arbitrário da educação pública brasileira que simplesmente preconiza um único caminho para o exercício da cidadania. Educar-se é estar imerso na lógica do consumo, e esse, talvez, seja nosso maior equivoco no que consta a nossa formação social…afinal fomos escritos pelas elites, mas contados pelo nosso próprio cotidiano. Dessa forma “animar-se” significa dar vida ao que, ainda, não foi contado, escrever o que foi vivenciado, dançar o que foi nos foi levado, interpretar o que nos foi roubado….esse é sentido, o caminho, escrever uma história, por dentro da escola pública brasileira, desenvolvendo no cotidiano uma prática de constante animação. O Processo é lento, o caminho possui barreiras, mas quem disse que a chegada das classes populares na escola foi diferente?

Bruno Adriano

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