Lahire, Bourdieu e Cartilha de mobilização para pais e responsáveis (PDE/2007): relações possíveis e indagações infindáveis

Caren Victorino Regis

Saindo da temática central de educação integral e tempo integral, partimos para um texto que se propõe a apresentar uma discussão baseada na relação escola-família tendo como base a cartilha de mobilização para pais e responsáveis apresentada no Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE/2007). Tal tema se faz presente para dar continuidade a questões tão relevantes que se tem tratado na atualidade: A presença dos pais colabora para aprendizagem dos alunos? Como fazer essa interação entre escola e família? Entendendo a família como um ponto importante para o desenvolvimento da criança, já que esta é a primeira instituição que “todos” passam, ali adquirindo valores, experiências e aprendizado, ou seja, sendo educado para estar em outros espaços. Diante disso, trarei para embasar a discussão, alguns autores que tocam no tema, como Lahire e Bourdieu, que nos darão um olhar diferente sobre o mesmo assunto, assim, nos fazendo refletir e buscar indagações e respostas. Aqui trago mais um questionamento que servirá de base para a leitura do texto: qual a responsabilidade da família na vida escolar dos alunos?
Percebemos alguns pontos em comum entre os dois autores, que corroboram que a vida familiar é um aprendizado para a trajetória escolar dos filhos, porém vemos que os autores discordam no ponto da singularidade e individualidade, onde o sucesso e o fracasso escolar podem determinar na vida das crianças. Lahire acredita que não só a família, mas a escola e outras instituições sociais podem influenciar o sucesso escolar de cada um, não sendo algo determinado objetivamente e nem subjetivamente, mas sim entre as diferentes redes sociais que influenciam cada ser, é a singularidade do indivíduo que se manifesta na sua vida coletiva. Já Bourdieu traz o conceito de habitus que também não se liga ao objetivismo nem ao subjetivismo, porém é mais arraigado no sentido da história coletiva e social da classe/grupo social que cada indivíduo pertence, pois este traçará estratégias de ascensão social de acordo com o que viu e vivenciou em seu grupo social, abstraindo isso não de forma consciente, mas como um fator prático de ação.
Retornando, para Lahire há uma possibilidade das famílias interagirem com a escola, já que as pessoas não seriam determinadas e condicionadas por apenas uma instituição, estando em constante aprendizado social, podendo ao longo de suas vidas compreenderem que a escola é algo produtivo e benéfico para seus filhos; o que para Bourdieu se daria de forma diferente, pois as classes populares dificilmente estariam dispostas a esta interação, pois o passado, seu processo histórico de formação demonstraria que existe uma tendendencia de fracasso na relação entre a escola e mobilidade social ascensão social. Estando claro ainda para os dois autores que a família é ponto essencial para a trajetória escolar das crianças, sendo mais intensa para um do que para outro.
Com esse breve panorama teórico, lendo e refletindo sobre a cartilha do PDE, vemos que há um pensamento mais conectado a Lahire do que a Bourdieu, já que o referido instrumento estimula alguns hábitos familiares que seriam ideais para um bom desempenho estudantil, ou seja, a condição de hábitos cultivados em família que transporia para escola.
Numa análise mais bourdieuniana vemos que esta cartilha se direciona a classe média, já que valoriza a escola como um dos principais meios de obtenção de capital cultural, menciona a questão da escola como um trampolim social, a qual teria muita importância para a vida das crianças que lá estivessem como se fosse à melhor opção de vida social para todos. Atentando ainda para alguns pontos como, por exemplo, a leitura como um hábito, ou seja, esta como uma forma de melhor inserção na sociedade, um capital cultural para o trabalho e para as coisas simples do mundo letrado, típico de uma visão da classe média, não vendo a leitura como um saber cultural do prazer e do gosto, ou seja, ler por ler, saber por saber, pelo simples fato de satisfação do homem e do seu autoconhecimento, visão esta muito mais ligada a uma elite.
Ainda pensando em pontos da cartilha do PDE vê-se que os professores estão no foco, sendo muitas vezes culpabilizados, se negando os fatores sócio-históricos constituintes da escola, onde não adianta muitos professores comprometidos, merenda escolar de qualidade e livros do governo federal, pois existem fatores extra-escolares que influenciam na trajetória do aluno.
Diante dessas observações podemos pensar não só a relação escola-família, mas o que esta escola ensina, cultiva e agrega. Porque muitas vezes tentamos adequar todos a um modelo escolar, mas não vemos que o problema esta nela, numa educação que exclui, amedronta e nega a muitos uma vida social adequada. Pensando ainda com Bourdieu na questão dos diplomas e de sua desvalorização tem-se hoje um sucateamento da educação pública, que foi redemocratizada, ampliando seu atendimento a muitos, mas que nesse mesmo momento não pensou como esses muitos estariam nesse espaço. Para esta explicação recorremos a História; com a criação da escola com o advento da Modernidade se constituiu escolas para pobres e escolas para ricos, aonde os primeiros iam para aprender os ofícios e trabalhar, e os segundos eram os pensadores e ditavam o caminho que a sociedade deveria seguir. E séculos depois, em 2010, o que temos o que vemos o que mudou?
A Modernidade continua presente, assim a escola também, mas não podemos achar que há um determinismo que a faz ser para a elite e a classe média, pois dentro dela há lutas travadas, contradições que nos estimulam a agir e pensar certo, num movimento que nos faça tentar ultrapassar as desigualdades que se colocam a nossa frente, compreendendo que devemos refletir e pensar sobre o que a escola representa para a manutenção e construção da sociedade, o que seus saberes didatizados revelam sobre o que se deve aprender e o que se deve ensinar.
Portanto, devemos buscar uma pedagogia que construa a solidariedade, o espírito coletivo, e busque um cidadão emancipado e construtor de uma história coletiva, compreendendo ainda que não podemos mudar a sociedade pela escola, mas podemos melhorá-la e mudar algo que nos incomoda, nos instiga e nos afeta, compreendendo que não somos determinados, mas apenas condicionados pela nossa História social.
E o PDE e sua cartilha o que podem colaborar para isso? Será que eles atingem a quem realmente deveria? Como metas e ações dispostas no site do Ministério da Educação podem alcançar a população? O que essa cartilha muda no pensar educacional que se volte para a classe popular?
A cartilha do governo federal pouco muda e colabora para uma real e verdadeira mudança educacional, sendo muito mais um pensamento do governo sobre a atuação dos pais do que uma medida satisfatória. Mas será que essa cartilha pensa de forma correta a educação? A luz de Lahire poderia dizer sim, a luz de Bourdieu diria que não. E na fundamentação teórica dos dois autores concordo com o segundo, pois enquanto não mudarmos a sociedade como um todo, a família continuará sendo influenciada pelo seu grupo social e tomando ações práticas que se direcionam no sucesso e fracasso escolar de seu grupo pertencente. Logo, uma cartilha como esta não modifica, apenas fortalece a classe média em sua intenção de ascensão social pela escola, permanecendo com as estruturas sociais vigentes na sociedade e com o engano de que a escola é a salvadora da população.
Tais conclusões e reflexões sobre a relação estabelecida entre escola-família nos leva a outros questionamentos mais profundos, que estão no cerne da discussão sobre educação e a complexa tarefa de entendê-la e achar respostas para a melhoria da mesma.

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