FRAGMENTOS DE REFLEXÕES SOBRE O TEMPO – PARTE 2

 Felipe Rocha dos Santos

Em “Fragmentos de reflexões sobre o tempo – parte 1”, defendemos a idéia dos ritmos biológicos serem estruturados e constituídos a partir de uma organização social, ou seja, apesar de não termos consciência disso, os homens, na atualidade, foram paulatinamente sendo disciplinados a partir de uma adequação do ritmo biológico ao ritmo social.  Conforme sinaliza Elias, a sociedade em constante transformação “obriga os homens a se disciplinarem, até certo ponto, pautando seu relógio fisiológico num relógio social” (1998, p.42).

Essa mistura do tempo da natureza com o tempo social também foi foco de análise de Thompson (1998), em “Costumes em comum”. O autor afirma “que, entre os povos primitivos, a medição do tempo está comumente relacionada com os processos familiares no ciclo do trabalho ou das tarefas domésticas” (p.269). E ao exemplificar, cita que para o povo Nandis a ocupação do tempo era regulada considerando as meias-horas dos dias, onde: “às 5:30 as vacas foram levadas para o pasto; às 6:00 soltaram-se as ovelhas; às 6:30 nasceu o Sol; às 7:00 começou a aquecer; às 7:30 as cabras foram levadas para o pasto” (idem, p.270).

É interessante destacar a questão da disciplina a que os homens foram sendo submetidos para a realização de suas tarefas diante da necessidade de sincronização das atividades individuais e coletivas a outras atividades relativas às mudanças ocorridas no mundo.

Thompson relaciona essa disciplina gerada pela contagem do tempo ao trabalho. Em suas palavras, a notação do tempo “tem sido descrita como orientação pelas tarefas. Talvez seja a orientação mais eficaz nas sociedades camponesas, e continua hoje a ser importante nas atividades domésticas e dos vilarejos” (idem, p.271).

Buscando explicar o ordenamento temporal através de tarefas e sua permanência na atualidade, o autor apresenta três questões: A primeira está vinculada ao fato de o tempo marcado pelas tarefas ser mais compreensível, em termos humanos, do que o tempo do relógio porque apresenta um sentido de necessidade concreta que o relógio não é capaz de oferecer. A segunda relaciona-se a pouca separação entre a vida e o trabalho, com uma falta de caracterização precisa entre as demais relações sociais e o trabalho. E a terceira diz respeito ao fato de que para aqueles que estão acostumados ao tempo marcado pelo relógio, o trabalho tem sempre um caráter de urgência, e a atitude que mistura vida e trabalho parece gerar desperdício (idem, p.271-272).

Em consonância com os apontamentos de Thompson, Elias (1998) apresenta elementos para a compreensão da prática da agricultura como um fator relevante – senão imprescindível – para o processo de marcação do tempo a partir de tarefas (p.42). E, destaca o papel social daqueles que detinham o conhecimento sobre as questões da natureza, na maioria das vezes, os sacerdotes ou uma função equivalente, na determinação dos hábitos, costumes, ritmo de trabalho, enfim na criação de uma disciplina social.

Nesse pequeno ensaio apresentamos observações que possibilitam um aprofundamento no debate acerca da função do tempo como um elemento de coordenação, integração e regulação da sociedade através do trabalho. É possível inferir que é a partir da realização das tarefas que se atribui ao tempo uma funcionalidade social, possibilitando a sua compreensão como um instrumento de orientação.

Referência Bibliográfica:

THOMPSON, E. P. “Tempo, disciplina de trabalho e o capitalismo industrial”. In: THOMPSON, E.P. Costumes em Comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Elias, Norbert. Sobre o Tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

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