História Comparada e Educação Integral: possibilidades

Bruno Adriano

 

“Comparar o comparável” expressava o historiador dos Annales Marc Bloch. Representante da primeira geração desta importante corrente da historiografia, Bloch inaugurava junto com Lucien Febrve, em meio ao caos instalado durante a primeira guerra na Europa, uma nova forma de se entender e de se fazer a história. Contrários às abordagens míticas dos indivíduos estes dois autores preocupavam-se em explorar um lado menos conhecido da história dos Homens. Lugares que fugissem dos “comuns” e que permitissem uma compreensão mais ampla dos fenômenos históricos – a “explicação total” como prefere Le Goff. Para eles a história necessitaria ser compreendida através dos indivíduos, compreendidos como parte integrante de um sistema de idéias, valores, costumes, nem sempre homogênea, no entanto, também não tão diferentes assim. Entendia-se como necessário à interpretação da história pelos seus movimentos distintos, de forma a entendê-los diferenciadamente, trazendo para a discussão outros tipos de fontes, que não, somente, as oficiais, e ilustrando quadros que convergissem ou não com as tendências históricas. No debate sobre as continuidades o foco estaria nas diferenças, nas diferentes maneiras de se interpretar os fenômenos, tidos como similares, ou, talvez, cíclicos por um ponto de vista estritamente econômico.

Como forma de prevalecer tais entendimentos na história, Marc Bloch inaugura em sua obra “Os Reis Taumaturgos: o caráter sobrenatural do poder régio (Inglaterra e França)” (1924) uma compreensão historiográfica comparativa entre duas realidades querendo demonstrar as diferenças existentes na crença do poder régio, através do toque, na cura da escrófula (mal dos reis) no período medieval, portanto a permanência de tal costume – ou por que não dizer a história de um milagre? – durante um extenso período. Em outra obra, igualmente importante, mas com uma visão metodológica distinta dos “reis”, “A Sociedade Feudal” (1939), Bloch procurava as analogias entre o modo de produção feudal europeu, detendo-se a realidade francesa, com uma forma de organização peculiar Japonesa, buscando evidencias que sustentassem a idéia de um mesmo modo de produção em uma sociedade distante – não-contíguas. Isso reforçava uma compreensão Durkeiniana presente no autor de que a comparação em si, poderia ser vista enquanto a própria teoria e que necessariamente, mesmo para se conhecer realidades próximas, em seu caso a França, seria de bom grado um diálogo com outras realidades, outras formas de se compreender o mesmo fenômeno.  

De um ponto de vista metodológico Marc Bloch buscava aproximar realidades que demonstrassem traços possíveis de comparação, similaridades ou ausências que pudessem ser analisadas em busca das diferenças existentes. Comparava, portanto, espacialmente e temporalmente, sendo de sua preferência, a comparação de realidades próximas como no caso dos “reis taumaturgos”. No entanto, isso não quer dizer que os limites da comparação estavam dispostos, somente, através destes preceitos. Le Goff em importante prefácio da obra “Os Reis Taumaturgos” assim define esta questão: “A bem dizer, o comparatismo de Marc Bloch é essencialmente um pouco tímido, parece-me isso; isso porque ele não dispunha de teorias e de métodos que lhe permitissem ir mais longe sem abandonar as regras de prudências e as exigências de historicidade necessárias a reflexão histórica.” (1993 :p.33).

Isso abre caminho, com certa sobriedade, para outros projetos possíveis de comparação. Não necessariamente contíguos no tempo e no espaço, que também precisam ser vistos no interior de suas possibilidades, mas demarcados por traços de comparação que viabilizem a analise do que é contínuo assim como colocam Theml e Bustamante (2007): “É necessário afastar-se de todo o tipo de hierarquização de culturas e sociedades, de níveis de realidades estanques ou de supremacia de um domínio sobre o outro, pois existem diversas redes de imbricações, quando se tratam de fenômenos sociais, que não são necessariamente lineares, causais e evolutivas. Estas redes têm mais condições de serem percebidas e elucidadas quando se tornam objeto de uma abordagem comparativa pela construção de um conjunto de problemas, que perpassam as pesquisas da equipe disposta a trabalhar comparativamente. Logo, não há preocupação com hierarquias, pois não se objetiva formular modelos abstratos, leis gerais, relações de causalidades, origem nem essência dos fenômenos, mas sim descobrir formas moventes e múltiplas com as quais as sociedades se depararam, as representaram e se transformaram.” (p. 23)

Esse é o desafio que nos propomos a percorrer, com vistas de apontarmos “soluções” para as dificuldades existentes nos estudos referentes ao fenômeno da “Educação Integral” no Brasil. Alguns pesquisadores avaliam certa polissemia como forma de evidenciar múltiplos entendimentos sobre o termo (Guará, 2005) outros consideram um pleonasmo falar em “educação Integral” (Paro, 2009), visto o projeto de educação desejado, no entanto nenhum, até o presente momento nos apresenta uma alternativa teórica que deflagre possibilidades de compreendermos o que está dito, não acabado, ao longo de nossa historia educacional. Diversas foram a experiências, e diversas são, na atualidade, as possibilidades de investigação difundidas pelo país. Por vários momentos, movimentos, e a história precisa ser vista a luz de seu momento, a “educação integral” esteve presente, ora como alternativa ao quadro social existente em nossa educação pública, ora vista no interior do conservadorismo, ou por deflagrações assistenciais no campo da política social, no entanto o fato que se consuma é a presença de tal fenômeno ao longo de nossa construção social.

Comparar nesse caso, observando o fenômeno no interior de nossa história, seria desejável pelo fato de procurarmos analogias, ausências de forma à melhor compreendermos o que até aqui produzimos. Uma espécie de projeto, que para além de apontar as demandas emergentes do fenômeno, apontasse as necessidades de institucionalização do mesmo enquanto temática de estudos mais aprofundados: “a incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Mas talvez não seja mais sutil esforçarmo-nos por compreender o passado, se nada sabemos do presente” (Bloch, 1965 p.42).

O que propomos, portanto, nessa breve exposição detém sua relevância no próprio campo e as necessidades partem do que detectamos enquanto problema – uma história problema – passível de investigações, mais amplas sobre os processos que desencadearam uma compreensão difusa da temática da “educação integral”. Um projeto de história comparada, nem de longe poderia sem considerada como a solução para todos os problemas, no entanto, poderia revelar dentro de uma compreensão mais plural, não somente presa ao que consideramos oficial: os elementos necessários para uma periodização densa do fenômeno.

Referências:  

BLOC, March. Os Reis Taumaturgos: o Caráter sobrenatural do Poder Régio, França / Inglaterra. Prefácio Jacques Le Goff; São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

BLOC, March. Introdução a História. Lisboa: Publicações Europa – America, 1965.

BARROS, José D’assunção. História Comparada: um novo modo de ver e fazer História. Revista História Comparada, Rio de janeiro, V. 1, n. 1, p. 1-30, 2007.

GUARÁ, Isa Maria F. Rosa. É imprescindível Educar Integralmente. In Cadernos CENPEC. Educação Integral. São Paulo, 2005.

Neide, THEML e BUSTAMANTE, Regina. História Comparada: olhares Plurais. Revista História Comparada, Rio de janeiro, V. 1, n. 1, p. 1-23, 2007.

PARO, Victor. Educação Integral em Tempo Integral: uma Concepção de Educação para a Modernidade. In COELHO, Ligia Martha C. C. (Org.). Educação Integral em Tempo Integral: Estudos e Experiências em Processo. Petrópolis – RJ: DP ET Alii; Rio de Janeiro: FAPERJ, 2009.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: