Jornada ampliada e os educadores: apontamentos para reflexão

Por Caren Victorino Regis

 

Pensando no que escrever me deparei com uma questão que há muito me incomoda, no sentido bom da coisa, e que gostaria de compartilhar com vocês – sobre a formação dos educadores que trabalham em jornada ampliada.

Muitas são as experiências que temos hoje de jornada ampliada, desde professores formados no Curso de Pedagogia que permanecem ministrando aulas, mesmo que não seja sua especialidade, ou então professores especializados que permanecem com as crianças sem um planejamento conjunto com os outros professores, e até mesmo aqueles chamados “oficineiros” que não tem formação para professor, mas mesmo assim ministram aulas sobre alguma temática que se pressupõe que tenham habilidades e conhecimentos.

Muito ingênuo seria se colocássemos uma formula professor + aluno = bons resultados educacionais. Sabemos que a educação escolarizada se faz por muitos mais fatores, intra e extraescolares, que influem diretamente na aprendizagem do aluno, esta inclusive que poderia ser ponto de questionamento. O que ensinamos? A quem serve esses conhecimentos que estão na escola? Mas a discussão se envereda por outro lado.

Primeiro temos que ter claro que a formação a qual falamos aqui está direcionada as atividades diversificadas de jornada ampliada, tais como esportes, reforço escolar, artes, informática, entre outras que hoje predominam nas escolas brasileiras, sendo oferecidas, em sua maioria, no contraturno, como mostra o relatório quantitativo da pesquisa Educação integral / educação integrada e(m) tempo integral: concepções e práticas da educação brasileira. Neste momento nos perguntamos: Como essas atividades se relacionam com o que aprendido na escola? Como os profissionais que irão trabalhar são escolhidos? O planejamento das aulas é feito conjuntamente com todos os educadores? O que se pretende com a ampliação da jornada escolar? Quais os objetivos de atividades diferenciadas na escola?

Tais informações e questionamentos nos encaminham a refletir sobre o que se é oferecido nas escolas e quem participa dessas atividades, já que como vimos, a sua maioria acontece no contraturno, tendo como possibilidade de entendimento: i) a não conexão e integralidade com o todo do conhecimento, sendo as atividades, como o nome diz “diversificadas”, um adendo, um diferencial, sendo contrário com aquilo que se aprende na base comum, os saberes considerados “verdadeiros”; ii) melhor operacionalização das escolas, em termos de organização física e de profissionais.

Trabalhando ainda na primeira hipótese, podemos concluir que os conhecimentos obtidos na escola são dissociados e hierarquizados. Logo, a expressão “Projeto Pedagógico” pode ser considerada como uma redundância, pois se é pedagógico é político, já que educar é um ato político. Contudo devemos nos ater a essa consonância de conhecimentos, e os educadores além de conhecer a proposta, devem saber por que estão exercendo tais atividades, onde suas aulas encontram-se com as outras, a importância de um planejamento conjunto, e a escolha do educador para ministrar tais “aulas”. Isso incide diretamente no que foi exposto acima, um professor de Pedagogia, um professor licenciado, um “oficineiro”, ou sujeito da comunidade para educar? Atualmente a proposta é de que todos educam no espaço educativo, e em diferentes espaços as crianças também se educam tal afirmação não é por si só leviana, mas têm equívocos. A educação não significa o conhecimento escolarizado, logo, educar é aprender algo constituído social, histórica e culturalmente, falamos assim de educação da família, da Igreja, dos sindicatos, da mídia, entre muitas outras, mas quando queremos tratar de escola não podemos “cair” num discurso frágil, que traz em si concepções políticas que absorvendo tudo, se perdem no nada. Também concordo que um professor de artes, dará uma aula muito melhor de pintura, que um Pedagogo (pela obviedade de sua formação), assim, como nas outras especialidades, também concordo que um carpinteiro sabia o que nenhum professor aprendeu em Universidade nenhuma, mas também sei que a escola tem intenções pedagógicas, que devem ir ao encontro de uma perspectiva de formação do educando. Parece que chegamos num final sem solução?

Diante de tais reflexões, por mais confusas e contraditórias que sejam, o que quero deixar claro é, um projeto de ampliação de jornada escolar deve estar de acordo com objetivos pedagógicos, que visem uma integração entre os conhecimentos, valendo sim professores tanto licenciados, quanto de pedagogia, os “oficineiros”, e até mesmo sujeitos da comunidade, porém o trabalho desses profissionais deve estar de acordo com um proposta educativa integrada,  na qual o professor da manhã sabia que o da tarde faça, e que o Professor de artes possa estar no mesmo espaço que o carpinteiro, por exemplo.

Por fim deixo aqui as questões levantadas acima, para que pensemos no que a jornada ampliada escolar consiste em termos não só do tempo, mas de organização e concepção pedagógica.

Referências

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Educação integral: texto referência pra o debate nacional. Brasília, 2009.

­­__________. Educação integral/educação integrada e(m) tempo integral: concepções e práticas da educação brasileira – mapeamento das experiências de jornada escolar ampliada no Brasil. Brasília, 2009.

PARO, Vitor Henrique. Implicações do caráter político da educação para a administração pública. São Paulo: Educação e Pesquisa, vol. 28, n.2, jul/dez de 2002.

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