MAIS TEMPO PARA ALFABETIZAÇÃO!

                                                                                                        Valdeney Lima

Neste artigo de opinião disserto sobre a relação entre alfabetização e a jornada escolar ampliada. Considero o tema  pertinente e digno de ser aprofundado em outras oportunidades, entretanto, aqui me disponho a colaborar com a presente discussão, enfatizando a utilização da jornada ampliada para a consolidação do processo de alfabetização nas instituições escolares. Por fim, deixo aos leitores algumas reflexões que poderão ser discutidas em estudos subseqüentes.

Destaco inicialmente que a ampliação da jornada escolar já é realidade em grande maioria dos municípios brasileiros, conforme apontam os dados de uma pesquisa nacional interinstitucional financiada pela Secretaria de Educação Especial, Alfabetização Continuada e Diversidade (SECAD), disponível para consulta pública em seu próprio site. Nesta pesquisa, dois pontos chamam atenção: a multiplicação de experiências de jornada escolar nas esferas municipais; e, a significativa presença de “oficinas” de reforço escolar entre atividades diversificadas no horário diário ampliado.

Embora os dados qualitativos da pesquisa nacional ainda estejam no prelo, penso que algumas questões podem ser evidenciadas quando da observação, embora não comprovadas empiricamente, das experiências em processo nos cantões deste país. Uma dessas questões que discuto aqui se refere ao fato de que a ampliação da jornada vem possibilitando a intensidade do trabalho de alfabetização de crianças no espaço da escola. Ou seja, por meio da jornada ampliada (inclusa o tempo integral), vem sendo implementadas atividades visando o trabalho da leitura e da escrita (além das operações matemáticas) com os alunos que ficam mais tempo na escola.

Nas experiências cuja jornada escolar ampliada não mescla as chamadas aulas das disciplinas regulares com atividades complementares, o trabalho intensivo de alfabetização ocorre no contraturno escolar. Nesse formato, o aluno estuda em um período as disciplinas do currículo escolar e, no contraturno, participa de oficinas de leitura e escrita (letramento), ou mesmo de aulas de reforço de aprendizagem.

Penso que se aprender requer tempo! A criança necessita de tempo para assimilar idéias, conhecimentos, informações(…)  Levando-se em consideração esse aspecto é oportuna a ampliação da jornada escolar, particularmente, nas séries iniciais do Ensino Fundamental. Agora, no que tange a extensão do tempo diário na escola, concordando com Coelho & Menezes (2007) não bastará aumentar algumas horas na jornada escolar  sem a necessária discussão acerca da qualidade desse horário ampliado.

Em relação às experiências de jornada escolar ampliada que estão investindo em projetos de alfabetização no horário ampliado, é para também se pensar na própria concepção de alfabetização que permeiam esses projetos. Sem querer mergulhar a fundo nessa problemática, ressalto que é fundamental refletir sobre que “método” está se utilizando para que os educandos se apropriem das práticas de leitura, escrita e operações matemáticas.

Quando penso nos atos ler e escrever, parto do entendimento que estes são processos correlacionados e que devem se desenvolver simultaneamente na prática pedagógica escolar. Sendo ações interativas, o ler e o escrever precisam, acima de tudo, ser efetivamente praticados no espaço da sala de aula. O que vem acontecendo no cotidiano escolar nos parece mostrar uma realidade diferente, e que de certo modo, nos causa espanto.

Em muitas escolas, o ler e o escrever são pensados como processos isolados, restritos, muitas vezes, à disciplina de Língua Portuguesa nas séries iniciais ou nas disciplinas de Redação e Literatura, no caso das séries terminais da educação básica. Além disso, se percebe a leitura e a escrita não como experiência, mas, como exigência. Como conseqüência, as produções escritas e as práticas de leituras cumprem apenas meros requisitos para avaliação de desempenho (escolar).

Compreendo a leitura e a escrita enquanto atividades que proporcionam experiências ao sujeito. Sendo assim, cabe-nos carregar um pouco da leitura para além do seu tempo, para além da hora em que se realiza que deve ocorrer o mesmo com a escrita, compreendida sua importância enquanto experiência. (Kramer, 2000).

 Partindo do entendimento que ler e escrever devem consistir em situações de vivências e que desempenham um papel importante na formação dos próprios sujeitos (Kramer, 2000), nos resta empreender investidas para sua promoção no ambiente escolar, principalmente no espaço de sala de aula. Isso implica na reflexão de nossas práticas pedagógicas. Nesse sentido, cabe ao professor encorajar a “compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo” (FREIRE, 2001, pag. 11). A compreensão crítica do ato de ler pelo sujeito perpassa, a meu ver, momentos de vivências com a escrita e oralidade.

A ampliação do contato com práticas de leitura e escrita pode ser possível através de um elemento que hoje se visualiza indispensável para a escola: a extensão de sua jornada.  Assim, a extensão do tempo de permanência do aluno na escola ou sob sua responsabilidade, particularmente, para aqueles oriundos das classes populares, pode (e deve) possibilitar o incremento de atividades educativas complementares, instaurando uma “experiência escolar multidimensional, que atue integradamente em aspectos da vida dos alunos, relacionados ao seu bem-estar físico (saúde, alimentação, higiene); ao seu desenvolvimento como ser social e cultural  e à sua capacidade como ser político” (Cavaliere, 1996: p. 12). 

Com a jornada escola ampliada, as práticas de letramento, ou seja, o uso social da leitura e da escrita (Soares, 2001) podem ser realizadas não somente em aulas ou oficinas de língua portuguesa, redação ou literatura, mas também podem ser realçadas em atividades das mais diversas, a exemplo de esportes, dança, artes plásticas e atividades laborais.

 Referências bibliográficas.

 CAVALIERE, Ana Maria Villela. Escola de educação integral: Em direção a uma educação escolar multidimensional. Tese de Doutorado. Rio de Janeiro: UFRJ, 1996.

 COELHO, Lígia Martha Coimbra da Costa; MENEZES, Janaína Specht da Silva. Tempo Integral no ensino fundamental: ordenamento constitucional-legal em discussão. Anais da 30ª. Reunião da ANPED, 2007.

 FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 41ª. ed. São Paulo, Cortez, 2001.

 KRAMER, Sonia. Leitura e escrita como experiência – seu papel na formação de sujeitos sociais. Presença Pedagógica. V. 6 n. 31. jan/fev. 2000.

 SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 2. Ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2001

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