O espetáculo: a guerra no Rio de Janeiro

Bruno Adriano

Os últimos acontecimentos no Rio de Janeiro fornecem dados importantes sobre a realidade. As constantes imagens sobre violência já fazem parte do cotidiano, isto quando não somos os próprios protagonistas. Nas escolas públicas a realidade não é diferente. Em alguns casos fazem parte do cenário como trincheiras em tiroteios entre bandidos e policiais, em outros a escola é a própria produtora das cenas de violência. Contudo, queremos chamar atenção para um dos lados deste debate que precisa ser realizado dentro da escola: o processo de espetacularização da guerra.

Apresentaremos quatros filmes brasileiros para ilustrar nosso entendimento da problemática citada, além de analisarmos os últimos acontecimentos ocorridos durante a ocupação da Vila Cruzeiro e de Favelas do Complexo do Alemão na zona norte da cidade. Não temos a intenção de fornecer “a explicação” para os fatos, somente enfatizar a problemática da guerra vista como espetáculo. Isso, por acreditarmos que os confrontos não devem ser tratados como eventuais, mas sim como parte importante da ação do Estado, que gera lucros financeiros.

Santa Marta: Duas Semanas no Morro, de Eduardo Coutinho, 1987.

Nos anos finais da década de 80, o cineasta Eduardo Coutinho constrói uma impressão da realidade em uma favela no Rio de Janeiro. Como resposta aos intentos repressivos do Estado, por meio da intervenção policial, e aos grandes traços de desigualdades existentes entre  favela e  asfalto, o tráfico de drogas representou uma alternativa de poder em territórios de exclusão social. Nesse documentário são expostos os laços entre bandidos e comunidade, notadamente as relações em torno de um bem comum: a luta contra a repressão.

Notícias de Uma Guerra Particular, de Katia Lund e João Moreira Salles ,1999

Doze anos após a abordagem de Eduardo Coutinho, a “guerra particular” realizada nos territórios de exclusão é novamente retratada, dessa vez com olhar do Estado, da criminalidade e das comunidades açoitadas pelo fogo cruzado. O tráfico de entorpecentes aparece como pano de fundo de um investimento realizado em  depoimentos de quem vive o cotidiano das favelas através de dois eixos : o afastamento entre comunidade e bandidagem e o acirramento da criminalização da pobreza por parte do Estado. São entrevistados:  moradores de uma favela carioca, integrantes favelados do crime organizado, policiais do batalhão de operações especiais da polícia militar do Rio de Janeiro, o chefe da Polícia Civil  à época, um ex-integrante e fundador do Comando vermelho e Paulo Lins, escritor, que anos depois publicaria o romance “Cidade de Deus”.

Tropa de Elite, de José Padilha, 2007

Após a virada do século, novamente a “guerra particular” é retratada. Arrastado-se durante os anos retorna ao circuito cinematográfico, não só para um público restrito como nos dois longas anteriores, mas também para o grande público. A produção deste filme desencadeia um movimento de pirataria significativo, chegando ao público antes mesmo de seu lançamento. Toda a ficção é construída em cima das experiências do ex-comandante do batalhão de operações especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, notadamente sua relação com o combate ao crime organizado. Tráz a tona o envolvimento do Estado nesse certame, problema tratado nos dois filmes anteriores, acrescentando ao debate que este envolvimento vai além do processo de criminalização da pobreza, mas lucrando com a “guerra particular” em curso.

Tropa de Elite II: o Inimigo Agora é Outro, de José Padilha, 2010           

A “guerra particular” muda de foco. Nesse longa-metragem, analisa-se o Estado produzindo lucratividade dentro da favela. A problemática tratada no filme deixa de ser os maus policiais (corruptos) e o tráfico de drogas , e passa a ser o Estado enquanto lugar de corrupção. A idéia de particularidade se amplia e a guerra começa a ser analisada dentro das estruturas do Estado.

Os quatros filmes citados apresentam a guerra travada no Rio de Janeiro por perspectivas diferentes, no entanto, todos demonstram-na como parte do cotidiano da cidade. Esse fato não deve ser visto com relativismos, pois corremos o risco de naturalizá-lo diante da realidade e assim difundimos ainda mais um movimento de aceitação. Não é normal que cidadãos estejam envolvidos em perseguições e matanças e isso sendo exibido como se estivéssemos assistindo a reality shows pós-novela das oito. O sentimento de indignação não está na exibição somente, mas nos motivos que levam  a espetacularização da “guerra” nos grandes meios de comunicação.

Nos quatro filmes percebemos esse movimento. Primeiro um documentário nos moldes de “Eduardo Coutinho”, onde o protagonismo está nos relatos dos entrevistados, de difícil difusão para o grande público. Após, outro documentário que mescla cenas reais de ação nas favelas  com relatos dos envolvidos. No terceiro filme, o “capitão Nascimento” chega ao grande público por meio de uma ficção para mostrar os caminhos percorridos pela guerra. Finalmente, no quarto filme de nossa lista “A Guerra” torna-se personagem principal sendo difundida em milhares de salas de cinema.

O argumento que queremos defender é que essa idéia de guerra, ao longo dos anos vem gerando lucros, não só com a venda de armas e drogas, mas também através dos veículos de comunicação. Por isso acabam entrando no hall de problemas espetacularizáveis, para melhor “digestão” do grande público. Se nos filmes percebemos a movimentação dessa problemática para dentro das estruturas do Estado, observando para além da película, “A Guerra”, ingressa em outros ramos da economia, gerando outras formas de lucratividade. Agora não mais restrita as salas de cinemas, mas dentro das nossas casas.

 

           

       

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