Educadores contestam artigo de Gustavo Ioschpe, da revista “Veja”

Educadores: “Que bom que os Sindicatos de Trabalhadores da Educação preocupam os sacerdotes da privataria e seus braços ideológicos!”

Vários educadores divulgaram texto com críticas ao artigo de Gustavo Ioschpe (“Hora de Peitar os Sindicatos de Professores”), veiculado no site da revista “Veja”.

Vários meios de comunicação utilizam-se de seu poder unilateral para realizar ataques truculentos a quem ousa contrariar seus interesses. O artigo de Gustavo Ioschpe, publicado na edição de 12 de abril de 2011 da Revista Veja (campeã disparada do pensamento ultraconservador no Brasil), não apenas confirma a opção deliberada da Revista em atuar como agência de desinformação — trafegando interesses privados mal disfarçados de interesse de todos —, como mostra o exercício dessa opção pela sua mais degradada face, cujo nível, deploravelmente baixo, começa pelo título — “hora de peitar os sindicatos”. Com a arrogância que o caracteriza como aprendiz de escriba, desde o início de seu texto, o autor considera patrulha ideológica qualquer discordância em relação às suas parvoíces.

Na década de 1960, Pier Paolo Pasolini escrevia que o fascismo arranhou a Itália, mas o monopólio da mídia a arruinou. Cinquenta anos depois, a história lhe deu inteira razão. O mesmo poderia ser dito a respeito das ditaduras e reiterados golpes que violentaram vidas, saquearam o Brasil, enquanto o monopólio privado da mídia o arruinava e o arruína. Com efeito, os barões da mídia, ao mesmo tempo em que esbravejam pela liberdade de imprensa, usam todo o seu poder para impedir qualquer medida de regulação que contrarie seus interesses, como no caso exemplar da sua oposição à regulamentação da profissão de jornalista. Os áulicos e acólitos dessa corte fazem-lhe coro.

O que trafega nessa grande mídia, no mais das vezes, são artigos de prepostos da privataria, cheios de clichês adornados de cientificismo para desqualificar, criminalizar e jogar a sociedade contra os movimentos sociais defensores dos direitos que lhes são usurpados, especialmente contra os sindicatos que, num contexto de relações de superexploração e intensificação do trabalho, lutam para resguardar minimamente os interesses dos trabalhadores.

Os artigos do senhor Gustavo Ioschpe costumam ser exemplos constrangedores dessa “vocação”. Os argumentos que utiliza no artigo recentemente publicado impressionam, seja pela tamanha tacanhez e analfabetismo cívico e social, seja pelo descomunal cinismo diante de uma categoria com os maiores índices de doenças provenientes da superintensificação das condições precárias de trabalho às quais se submete.

Um dos argumentos fundamentais de Ioschpe é explicitado na seguinte afirmação:

Cada vez mais a pesquisa demonstra que aquilo que é bom para o aluno na verdade faz com que o professor tenha que trabalhar mais, passar mais dever de casa, mais testes, ocupar de forma mais criativa o tempo de sala de aula, aprofundar-se no assunto que leciona. E aquilo que é bom para o professor — aulas mais curtas, maior salário, mais férias, maior estabilidade no emprego para montar seu plano de aula e faltar ao trabalho quando for necessário — é irrelevante ou até maléfico aos alunos.


A partir desse raciocínio de lógica formal, feito às canhas, tira duas conclusões bizarras. A primeira refere-se à atribuição do poder dos sindicatos ao seu suposto conflito de interesses com “a sociedade representada por seus filhos/alunos”: “É por haver esse potencial conflito de interesses entre a sociedade representada por seus filhos/alunos e os professores e funcionários da educação que o papel do sindicato vem ganhando importância e que os sindicatos são tão ativos (…)”.

A segunda, linearmente vinculada à anterior, tenta estabelecer a existência de uma nefasta influência dos sindicatos sobre o desempenho dos alunos. Nesse caso, apoia-se em pesquisa do alemão Ludger Wossmann, fazendo um empobrecido recorte das suas conclusões, de modo a lhe permitir afirmar que “naquelas escolas em que os sindicatos têm forte impacto na determinação do currículo os alunos têm desempenho significativamente pior”.

Os signatários deste breve texto analisam, há mais de dois anos, a agenda de trabalho de quarenta e duas entidades sindicais afiladas à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e acompanham ou atuam como afiliados nas ações do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN). O que extraímos dessas agendas de ação dos sindicatos é, em tudo, contrário às delirantes e deletérias conclusões do articulista.

Em vez de citar pesquisas de segunda mão, para mostrar erudição e cientificidade em seu argumento, deveria apreender o que demanda uma análise efetivamente científica da realidade. Isso implicaria que de fato pesquisasse sobre a ação sindical docente e sobre os processos econômico-sociais e as políticas públicas com os quais se confronta e dialoga e, a partir dos quais, se constitui. Não imaginamos que um filho de banqueiros ignore que os bancos, os industriais, os latifundiários, a grande mídia têm suas federações ou organizações que fazem lobbies para ter as benesses do fundo público.

Um efetivo envolvimento com as pesquisas e com os processos sociais permitiria ao autor perceber onde se situam os verdadeiros antagonismos e “descobrir” que os sindicatos não se criaram puxando-se de um atoleiro pelos cabelos — à moda do Barão de Münchhausen —, autoinventando-se, muito menos confrontando-se com os alunos e seus pais.

As análises que não levam isso em conta, que se inventam puxando-se pelos cabelos a partir dos atoleiros dos próprios interesses, não conseguem apreender minimamente os sentidos dessa realidade e resultam na sequência constrangedora de banalidades e de afirmações levianas como as expostas por Ioschpe.

Uma das mais gritantes é relativa ao entendimento do autor sobre quem representa a sociedade no processo educativo. É forçoso lembrar ao douto analista que os professores, a direção da escola e os sindicatos também pertencem à sociedade e não são filhos de banqueiros nem se locupletam com vantagens provenientes dos donos do poder.

Ademais, valeria ao articulista inscrever-se num curso de história social, política e econômica para aprender uma elementar lição: o sindicato faz parte do que define a legalidade formal de uma sociedade capitalista, mas o ultraconservadorismo da revista na qual escreve e com a qual se identifica já não o reconhece, em tempos de vingança do capital contra os trabalhadores.

Cabe ressaltar que todos os trocadilhos e as afirmações enfáticas produzidos pelo articulista não conseguem encobrir os interesses privados que defende e que afetam destrutivamente o sentido e o direito da população à educação básica pública, universal, gratuita, laica e unitária.

Ao contrário do que afirma a respeito da influência dos sindicatos nos currículos, o que está mediocrizando a educação básica pública é a ingerência de institutos privados, bancos e financistas do agronegócio, que infestam os conteúdos escolares com cartilhas que empobrecem o processo de formação humana, impregnando-o com o discurso único do mercado – o da educação de empreendedores. E que, muitas vezes, com a anuência de grande parte das administrações públicas, retiram do professor a autoridade e a autonomia sobre o que ensinar e como ensinar dentro do projeto pedagógico que, por direito, eles constroem, coletivamente, a partir de sua realidade.

O que o Sr. Ioschpe não mostra, descaradamente, é que esses institutos privados não buscam a educação pública de qualidade e nem atender o interesse dos pais e alunos, mas lucrar com a venda de pacotes de ensino, de metodologias pasteurizadas e de assessorias.

Por fim, é de um cinismo e desfaçatez vergonhosa a caricatura que o articulista faz da luta docente por condições de trabalho e salário dignos. Caberia perguntar se o douto senhor estaria tranquilo com um salário-base de R$ 1.487,97, por quarenta horas semanais, para lecionar em até 10 turmas de cinquenta jovens. O desafio é: em vez de “peitar os sindicatos”, convide a sua turma para trabalhar 40 horas e acumular essa “fortuna” de salário básico. Ou, se preferir fazer um pouco mais, trabalhar em três turnos e em escolas diferentes. Provavelmente, esse piso para os docentes tem um valor bem menor que o que recebe o articulista para desqualificar e criminalizar, irresponsavelmente, uma instituição social que representa a maior parcela de trabalhadores no mundo.

Mas a preocupação do articulista e da revista que o acolhe pode ir aumentando, porque, quando o cinismo e a desfaçatez vão além da conta, ajudam aqueles que ainda não estão sindicalizados a entender que devem fazê-lo o mais rápido possível.

Gaudêncio Frigotto, Zacarias Gama e Eveline Algebaile são professores do programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPFH/UERJ).Vânia Cardoso da Mota é professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Colaboradora do PPFH/UERJ. Hélder Molina é educador, assessor sindical e doutorando do PPFH/UERJ.

5 respostas para Educadores contestam artigo de Gustavo Ioschpe, da revista “Veja”

  1. Lilian M Mansur disse:

    Senhor Ioschpe,

    Respeito suas opiniões, mas se nós professores fazemos parte de uma sociedade amorfa que não se importa com educação, tampouco com os professores quando repassam a tarefa de educar seus filhos à Escola. O Estado é o maior responsável pela decadência do ensino brasileiro, então, é fácil falar de barriga cheia. O salário dos professores é uma vergonha e uma desmoralização, os royalties do pré-sal são uma falácia e a inoperância é geral. Fazemos o que podemos e faremos nossa parte assim que o Estado Brasileiro em uníssono reconhecer a importância e o papel dos professores na educação, modernizando nossas escolas hoje em sua maioria sucateadas, uma reforma de ensino nos currículos, hoje desafasados e desinteressantes e sem mantermos o aluno em horário integral, além de apresentar um ensino técnico eficiente e necessário para aquele que não busca a Universidade como um fim. Comparar nossos salários com os pagos em Cuba é um absurdo. A sociedade e o Governo brasileiro não estão interessados em nenhuma discussão séria para melhorar a qualidade do ensino, independentemente dos salários do magistério, tanto é que somos o final de fila entre muitos Países em desenvolvimento. Generalizar e nos chamar de coitadinhos, vitimizados ou estropiados é bem típico de gente que habita elegantérimos gabinetes acarpetados, ar condicionado, cafezinho a todo instante e com várias secretárias, com toda infraestrutura necessária, coisas nem em sonho encontradas nas desmanteladas Escolas de Ensino Brasileiras. Não esquecendo, é claro um gordo salário a cada final do mês, então não dá para reclamar. Os professores têm mesmo é que se lixar.

    Prof.ª Lilian M Mansur
    Porto Alegre/RS

    Para finalizar, em nenhum momento, me senti estropiada, vitimizada ou pobre coitada, apenas muito envergonhada em pertencer a um classe trabalhadores formada por gente honrada e que dá o sangue para manter-se em tão bela, mas desrespeitada profissão. Não pedimos à ninguém colocar a azeitona em nossa empada. Sabemos nos defender sem este pseudos clima de compaixão. Obrigada.

  2. thiago lemos disse:

    Sou professor, mas concordo com os argumentos de Gustavo Ioschpe. Os sindicatos não estão preocupados com a qualidade do ensino. Estão mais preocupados em movimentar os professores para reclamar por maiores salarios, já que o sindiicato também vai sair ganhando, pois os sindicato recebe o imposto sindical.

    Existem vários interesses politicos por trás das manifestações de professores, e manipulação de partidos politicos como o PSOL e PSTU por trás das manifestações.

    Sou a favor da demissão dos professores faltosos e preguiçosos (SIM!! EXISTEM PROFESSORES QUE NÃO GOSTAM DE ENSINAR. BONS E MAUS PROFISSIONAIS EXISTEM EM TODAS AS ÁREAS, E NÃO ADIANTA CONTINUAR NEGANDO ISSO). Sou a favor da meritocracia na escola, do fim das ideologias marxistas que são ensinadas nas materias de historia e geografia, e sou a favor de dar um BASTA na indisciplina dentro da escola. Aluno que ofende professor dever ser processado, e seus pais devem para indenização por danos morais ao docente. Se for preciso, que faça uma reforma no estatuto da criança.

    A PEDAGOGIA DEVER SER MENOS IDEOLÓGICA E MAIS PRAGMÁTICA!!!

    Adotar apenas métodos com eficácia comprovada do ensino.

    Os professores não são sindicalistas!!! Eles devem estar preocupados no ensino de seus alunos, e não fazer proselitismos com os sindicatos.

    • Senhor Thiago Lemos sindicatos são sindicatos, professores são professores, nem todos estamos de acordo com o que o sindicalismo faz. Infelizmente, os dirigentes criaram ou se infiltraram em Partidos Políticos estragando tudo. Maus profissionais existem em qualquer profissão. Somos a favor da meritocracia e não temos medo de trabalhar, mas então que o governo faça por onde, quando é o primeiro a não se interessar pela Educação e da boa qualidade do ensino. Basta que reformule nossos currículos, converse com a classe em busca de soluções, levantando problemas estruturais, qualifique nossas desmanteladas escolas públicas com materiais que tragam oportunidades de melhoria do ensino aos alunos, e que torne o ensino interessante e não estressante, pague um salário justo, avalie o trabalho de cada um, nos dê o retorno do respeito perdido tanto da parte dos alunos como da sociedade, nos escute, que o sindicatos oportunistas de hoje não serão ouvidos, até porque nada terão a fazer diante da demagogia que hoje nos oferecem e que não soluciona os problemas de hoje, que são muitos. Nosso Sindicato aqui em Porto Alegre, não me representa e somos contrarias as atitudes tipo bate boca, e politiqueiras.
      O ensino tem que ser reformulado, curriculos modificados, tempo integral sim, mas cadê o espaço nos predios das nossas escolas públicas? Cadê horários disponiveis, cadê professores para poder realizar o tal ensino integral? Cadê a segurança nas escolas? Cadê o respeito ao professor na sua luta diária? Cadê o apoio necessário para que o professor tenha oportunidades de se especializar? Cadê cursos, cadê o feedback? Cadê tempo? Se o mesmo tem que trabalhar 3 turnos para poder se manter? Cadê o estimulo para que encaremos nossa jornada de trabalho mais reconhecimento? Não pensamos somente em dinheiro, queremos ser ouvidos pela sociedade omissa e que faz das nossas escolas depósito de crianças e que nos atira a responsabilidade de educar seus filhos? Cadê o governo que nos deixa ao Deus dará dentro de escolas em sua grande maioria depredadas e sem o mínimo essencial para que possamos ministrar nossas lições? Não temos ajuda de custo pra nada, passagens de ônibus, merenda, FGTS e por aí vai coisa que a maioria dos trabalhadores têm. O que temos vistos é um remendo ali e outro acolá, sempre a carreta na frente dos bois e políticos a frente nos Ministérios de Educação e Cultura completamente aleatórias a uma implantação de politicas públicas voltadas a melhoria dos ensinos fundamentais e médio. Então é fácil virar a casaca e apoiar um sujeito ao qual não pedimos opiniões e que nunca deve ter entrado em uma sala de aula em escolas Publicas, dizendo que somos sofredores, pobres coitados, vitimizados e estropiados generalizando e ofendendo a classe que não pertence, pois seu salario deve ser bem gordo ao final de cada mês. em finíssimos escritórios acarpetados. Então, por favor que esse sujeito não coloque a azeitona na nossa empada, não pedimos, não queremos, pois sabemos nos defender.Governantes e a sociedade têm os professores que merecem se não se interessam pela melhoria do ensino brasileiro

  3. Se o Governos nos derem Escolas Padrão Fifa, seremos os primeiros a apostar na real melhoria do nosso ensino e poderemos ser cobrados pelos resultados, aceitamos os desafios e seremos os primeiros a nos qualificarmos e aos nossos alunos em busca da educação integral e ideal para que nosso Brasil se torne melhor e não só com futebol.

  4. Carmem Bueno disse:

    A educação nunca será neutra, ela sempre estará comprometida com a manutenção do sistema ou com a transformação, de pelo menos uma parte dele, portanto, Sr. Thiago Lemos, a pedagogia deve ser cada vez mais ideológica e menos neutra, pois educar sempre foi e sempre será um ato político. Por favor, leia mais Paulo Freire.

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