O que nos dizem os livros publicados sobre o tema da educação integral em tempo integral?

A ideia de publicação deste ponto se deu em função do levantamento bibliográfico realizado para a produção de um artigo sobre a temática da educação integral em tempo integral. Trabalhamos apenas com os livros publicados sobre o tema e o nosso objetivo foi analisar as suas características. Como categoria de análise utilizamos duas formulações: “(…) uma que tende a investir em mudanças no interior das unidades escolares, de forma que possam oferecer condições compatíveis com a presença de alunos e professores em turno integral”, chamada de “escolas em tempo integral”; e uma “(…) outra que tende a articular instituições e projetos da sociedade que ofereçam atividades aos alunos no turno alternativo às aulas, não necessariamente no espaço escolar, mas, preferencialmente, fora dele”, denominada por ela como “alunos em tempo integral” (CAVALIERE, 2009 p. 52).

Alguns autores afirmam haver na atualidade um consenso entorno da segunda vertente “alunos em tempo integral” (MOLL, 2012). Vejamos se de fato isso ocorre ou não.

Existe a possibilidade de que outros livros publicados tenham sido “esquecidos”, no entanto, ao idealizarmos esse ponto trabalhamos com a ideia da provocação endereçada ao leitor, isto é, sugerir àqueles que acompanham as nossas discussões uma linha de raciocínio que se aproxime da nossa proposição. Gostaríamos que essas obras que não foram trabalhadas sejam indicadas nos comentários desse ponto com base na diferenciação analítica “escolas em tempo integral” e “alunos em tempo integral”.

A publicação contínua de livros que tratam de experiências escolares voltadas para a ampliação da jornada escolar por meio de diferentes perspectivas de educação integral é relativamente recente em nosso país. No passado isso também ocorria, no entanto, de forma esporádica, mas igualmente aos dias de hoje em função de analises de experiências escolares.

Esse é o caso da obra de Anísio Teixeira “Educação Para a Democracia: Introdução a Administração Educacional”. Nessa análise da experiência administrativa desenvolvida no Rio de Janeiro dos anos 1930 que culminou nas “escolas experimentais”, este autor evidenciava a sua preocupação com a solidificação de bases educacionais baseadas no princípio da igualdade de oportunidades. É possível afirmarmos que aquela perspectiva defendida por ele estava de acordo com a vertente “escolas em tempo integral”, justamente por apresentar a preocupação que relaciona as dimensões administrativas, pedagógicas e estruturais dessa instituição (TEIXEIRA, 1997).

O livro publicado sobre a experiência desenvolvida também por Anísio Teixeira na Bahia na década de 1950, O Centro Educacional Carneiro Ribeiro, também evidencia as preocupações desse intelectual da educação com as dimensões que conformam a “estrutura total” da escola. Por isso também podemos considerar que essa obra está de acordo com a vertente “escola em tempo integral” (EBOLI, 1969).

Podemos citar também uma obra produzida ainda nos anos 1980 que analisou as experiências dos Cieps no Rio de Janeiro e o Profic no estado de São Paulo: “Escolas de tempo integral: desafios para o ensino público”. Nesse livro a posição defendida pelos autores é explicita e tem relação com uma ideia de universalização do direito à educação baseada no acesso, na permanência, na apropriação do conhecimento sistematizado pela escola por parte dos alunos e que deve ser sustentado por uma estrutura de funcionamento adequada a esse fim. Acreditamos, por isso, que tal obra segue a linha defendida pela vertente “escolas em tempo integral” (PARO et al., 1988).

Mais recentemente, a coletânea de textos “Educação Integral e(m) Tempo Integral” que dedica a maior parte de suas páginas às propostas e às experiências que se caracterizam pela aproximação com a vertente “escolas de tempo integral”. Nesse trabalho a ênfase nas discussões sobre os Cieps, experiência desenvolvida no Rio de Janeiro, é esclarecedora a esse respeito (CAVALIERE; COELHO, 2002).

Alguns anos depois, o número oitenta da Revista “Em Aberto” do Instituto Nacional de Estatísticas e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), também dedica suas páginas ao debate sobre o tema da educação integral em tempo integral. Nessa coletânea de textos que possui como objetivos inventariar as práticas que se mostraram produtivas, redimensionar inadequações, estudar alternativas que se revelaram viáveis para colaborar com a implantação da política de ampliação da jornada escolar, é possível identificarmos a predominância de analises com enfoque na vertente “escolas em tempo integral” e com a preocupação com as dimensões estruturais, pedagógicas e administrativas que conformam a ideia de “estrutura total” (MAURÌCIO, 2009).

A coletânea de textos “Educação Integral e(m) Tempo Integral: Experiências em Processo” investe, tanto na análise teórica, quanto nas experiências em processo de ampliação da jornada escolar. Nesta obra também podemos observar que, apenas um dos textos se aproxima da vertente “alunos em tempo integral”, os textos restantes versam sobre a vertente centrada na escola e sobre questões ligadas aos seus fundamentos teóricos (COELHO, 2009).

Já o número 88 da revista “Em aberto”, ao contrário do número 80 que citamos acima, investe na tratativa da vertente “alunos em tempo integral” como forma de legitimação e fundamentação do programa Mais Educação. Todos os textos presentes nesta publicação estão de acordo com o entendimento de que essa vertente é o caminho necessário e possível para a política de ampliação da jornada escolar no Brasil (MOLL; LECLERC 2012).

Os artigos presentes na coletânea sobre os atuais paradigmas da educação integral, sobre as possíveis formas de se compreender a instituição escolar e sobre as experiências de educação integral em tempo integral em curso, “Caminhos da educação integral no Brasil: direito a outros tempos e espaços educativos” apresentam um enfoque que, em sua maior parte, está destinado à análise de fundamentos e experiências que se aproximam da vertente “alunos em tempo integral”. A legitimação do programa Mais Educação, assim como na Revista “Em aberto” nº 88 apresentada no parágrafo acima, é mote dessa publicação (MOLL, 2012).

Há que se destacar também a coletânea de textos “Educação integral: histórias, políticas e práticas”, cujo enfoque das analises presente nos artigos está na vertente “escolas em tempo integral” (COELHO, 2013) e o livro “Tempos e espaços escolares: experiências, políticas e debates no Brasil e no mundo”, cujo o enfoque também é voltado para analises fundamentadas na vertente “escola de tempo integral” (MAURÌCIO, 2014).

Podemos concluir, portanto, que existe uma diferenciação no âmbito da produção de livros que circulam na área da educação e que tratam do tema da educação integral em tempo integral. Nesse caso, em específico, existe uma predominância da vertente “escolas em tempo integral”, todavia isso não inviabiliza a circulação de livros que tratam da outra vertente.

Há que se destacar também que uma mesma Revista, “Em Aberto”, publicada por um órgão do governo federal (o Instituto Nacional de Estatísticas e Pesquisa – Anísio Teixeira), reflete essa falta de consenso na área da educação a respeito da temática. Isso serve como um indicador que desestabiliza a tese defendida pela vertente “alunos em tempo integral” de que existe um consenso nesse debate que é realizado na atualidade, acerca do tema da educação integral em tempo integral.

 

Referências:

CAVALIERE, Ana Maria Vilela; COELHO, Ligia Martha C (org.). Educação Brasileira e(m) Tempo Integral. Petropolis-RJ, Vozes, 2002.

CAVALIERE, Ana Maria Vilela. Escolas de tempo Integral versus alunos em tempo integral. In MAURÍCIO, Lucia Velloso (org): Em aberto: educação integral em tempo integral. v. 22, n. 80, p. 1-165, abr. 2009In MAURÍCIO, Lucia Velloso (org): Em aberto: educação integral em tempo integral. v. 22, n. 80, p. 1-165, abr. 2009.

COELHO, Ligia Martha C. C. (org.). Educação Integral e(m) Tempo Integral: Experiências em Processo. Petrópolis-RJ: DP&et alli; Faperj, 2009.

                        . Educação integral: história, políticas e práticas. 1. ed. Rio de Janeiro: Rovelle, 2013.

EBOLI, Terezinha. Uma experiência de educação integral. INEP-MEC, 1969 Disponivel em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.doselect_action=&co_autor=8267. Acesso em jun/2012.

MAURÍCIO, Lucia Velloso (org): Em aberto: educação integral em tempo integral. v. 22, n. 80, p. 1-165, abr. 2009.

                        . Tempos e espaços escolares: experiências, políticas e debates no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: Ponteio; Faperj, 2014.

MOLL, Jaqueline. A agenda da educação integral: compromissos para sua consolidação como política pública. In MOLL, Jaqueline et all. Caminhos da educação integral no Brasil: direito a outros tempos e espaços educativos. Porto Alegre-RS: Penso, 2012.

MOLL, Jaqueline; LECLERC, Jesuína de Fátima Elias. Educação integral em jornada diária ampliada: universalidade e obrigatoriedade. In MOLL, Jaqueline; LECLERC, Jesuína de Fátima Elias (org.). Em aberto: Políticas de educação integral em jornada ampliada. Vol. 25, n. 88, p. 1-214, jul/dez. 2012.

PARO, Vitor Henrique et al.. Escolas de tempo integral: desafios para o ensino público. São Paulo: Cortez Editora, 1988.

TEIXEIRA, Anísio. Educação Para a Democracia: Introdução a Administração Educacional. Rio de janeiro: Editora UFRJ, 1997.

 

 

 

 

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